quarta-feira, 17 de julho de 2013

PRESIDENTE ESTADUAL DA CUT NESPOLO

Fernanda Bastos GILMAR LUÍS/JC Nespolo crê que a CUT conseguirá mobilizar os trabalhadores Com a expectativa de liderar o movimento por uma mobilização geral dos trabalhadores nesta quinta-feira, dia 11, a CUT-RS tem feito reuniões para garantir a unidade das diversas categorias envolvidas no chamado Dia Nacional de Paralisação. O presidente da central sindical no Estado, Claudir Nespolo, não fixa qualquer estimativa sobre o número previsto de adesão. Entretanto, avisa que a suspensão deve ser intensa, inclusive nos serviços essenciais, como saúde e transporte público, nos quais os trabalhadores deverão operar com a capacidade mínima. Nespolo ressalta que o movimento não pegou carona nas recentes manifestações que agitaram o País: "Já estávamos nas ruas e continuamos nas ruas. Bem-vindo quem chegou", enfatiza. Para reforçar sua identidade, o movimento encerrará as atividades no máximo no fim da tarde, em ato no Largo Glênio Peres. Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o presidente da CUT-RS aponta os principais gargalos que motivaram os protestos da população - problemas enfrentados pelos trabalhadores todos os dias nas grandes cidades. E indica quais repostas os governos e o Congresso Nacional ainda devem ao povo neste momento que Nespolo avalia como de crise das instituições. Jornal do Comércio - Há alguns anos talvez não houvesse a expectativa de uma paralisação tão forte quanto agora, em função dos protestos. Que impacto haverá na mobilização? Claudir Nespolo - Óbvio que esse momento que o Brasil está vivendo facilita a mobilização. As pessoas estão com vontade de participar. Em que pese tenha crescido o emprego, o transporte continua o mesmo, as cidades estão trancando. A gente está há muito tempo falando dessas pautas, e não andam. Então as pessoas estão se manifestando. Achamos fundamental botar a pauta da classe trabalhadora. Hoje está criado um ambiente na cidade, no Estado e no Brasil de que se vai parar dia 11. Mas não é por conta de pegar carona. Tivemos a pauta discutida desde 6 de março. Já estávamos nas ruas e continuamos nas ruas. Bem-vindo quem chegou e acordou para vir para as ruas. Só gostaria que ficasse bem expresso que para o dia 1 de julho não convocamos greve. Para ter greve tem que ter pauta. Greve significa mexer com o emprego. O dia 11 tem que ser compreendido dentro de uma perspectiva histórica. As seis centrais sindicais entregaram no dia 6 de março, numa grande marcha em Brasília, com mais de 60 mil trabalhadores, uma pauta de reivindicação ao Congresso Nacional e também ao governo federal. JC - O que é reivindicado? Nespolo - Compreendemos que o Brasil vem de um período de crescimento, porém a distribuição de renda está muito travada, tem de acelerar. Decidimos fazer (a mobilização) dia 11 e vamos levar os trabalhadores para as ruas. Até agora o setor econômico não mexeu ainda com aquilo que se chama de poder econômico mesmo com todas as manifestações que houve no Brasil, independentemente das suas pautas, que são muitas. A redução da passagem se deu em cima da isenção de tributo. O máximo que mexeu foi quebrar algumas vitrines. As fábricas não pararam, as máquinas continuaram trabalhando. Então não mexeu com o poder econômico. Dia 11 vamos fazer um movimento para mexer com o poder econômico, porque compreendemos que essas pautas, se no Congresso não andam, é porque o setor empresarial, que é muito forte no Congresso, está trancando. A presidenta Dilma (Rousseff, PT) depende do Congresso e, no Congresso, a pauta classista é blindada. Então, temos que pressionar. Dia 11 vai ser uma grande mobilização nacional para dizer que se tem de aprofundar as mudanças no Brasil. JC - Qual a expectativa da CUT com relação à adesão? Nespolo - Estamos trabalhando efetivamente para fazer uma grande paralisação de todos os setores econômicos. A CUT tem filiados dos principais ramos de atividade econômica. Onde é que está o poder da CUT? O poder da CUT está nos principais sindicatos de calçados, da alimentação, dos metalúrgicos, da saúde, uma grande representação nos municipários, quase todos os sindicatos dos bancários do Rio Grande do Sul, mais um grande setor dos trabalhadores rurais que é a Fetraf-Sul, da pequena agricultura familiar. Todos esses ramos já estão conversando sobre o que fazer para parar. JC - E no Brasil? Nespolo - Serão sete centrais sindicais, porque a Conlutas também veio organizar, estão todas unificadas nessa pauta. A CUT pretende mobilizar 100% dos trabalhadores dentro de uma estratégia: cada ramo sabe como fazer para parar o seu ramo. Mas não só parar. Parar e tentar trazer para um grande evento no Centro de Porto Alegre a partir das 16h. Como ultimamente a gente teve muitas bombas, muito quebra-quebra, as pessoas se assustam um pouco. Por isso vamos fazer o ato às 16h para encerrar 18h30min no máximo. Vão ser três, quatro marchas de diferentes pontos da cidade, concentrando no Largo Glênio Peres, e ali vamos fazer um grande ato. JC - Como é a estratégia com relação aos serviços essenciais que não podem ser totalmente paralisados? Nespolo - A gente está trabalhando dentro de uma combatividade, mas não de uma irresponsabilidade. Por exemplo: serviço de saúde não vai parar 100%. Agora, obviamente que nenhuma consulta será feita. O que pode vai ficar para depois. JC - E o transporte coletivo? Nespolo - Vai ter o número mínimo. Poderia parar 100% pelo grau de unidade. Mas o transporte vai circular o necessário para cumprir, no mínimo, os 30% previstos pela Constituição Federal. Não esse absurdo que a Justiça determina, de 80%. Isto é intervenção na organização sindical. E, por outro lado, não é uma greve de uma categoria, é uma greve... JC - Geral? Nespolo - Não vou usar o nome geral. Porque senão fica muito fácil para os adversários, que não gostam que os trabalhadores se organizem, ficarem falando mal do movimento. Não vamos chamar de greve geral, mas vamos trabalhar para a greve geral. O pessoal do Interior está pensando uma estratégia para parar as BRs. Não estamos sós, contamos com o pessoal vinculado aos rurais, à coordenação dos movimentos sociais, todo um espaço de articulação política que envolve a Via Campesina, o MST, as pastorais sociais da Igreja, os movimentos de luta por moradia, de vilas, de bairros. JC - Quais são os principais pontos da pauta? Nespolo - Para o dia 11, como ampliamos os setores que estão participando, houve uma ampliação da pauta. Vamos tensionar para a redução da jornada, pelos 10% do PIB para a saúde, pelos 10% do PIB para a educação, pelo transporte público de qualidade, mudança nos leilões de petróleo, tem que acabar com as concessões, rechaçar o PL 4330, que é das terceirizações, além de pedir as reformas política e urbana e democratização da comunicação. JC - Como avalia a ideia de reforma política por meio de um plebiscito? Nespolo - É fundamental a reforma política. Precisamos melhorar a democracia e criar mecanismos para acabar com a corrupção. O principal problema é que as eleições são financiadas pelas grandes empresas. Para eleger um deputado não precisa de povo, precisa de dinheiro. O Congresso que a gente tem não reúne nenhuma condição de fazer a reforma política. A reforma política é mais do que uma reforma eleitoral ou partidária. Tem de acabar com as emendas parlamentares, com o 15º salário e com o Senado. Não tem serventia o Senado e é um gasto para a nação. Mas o Congresso não fará a reforma como deveria, porque seria legislar contra si mesmo, o que justifica uma Constituinte exclusiva. JC - Mas o plebiscito irá apenas orientar o Congresso. Nespolo - O plebiscito pode ajudar a resolver, embora a gente saiba que não é o melhor caminho. Era melhor ter o plebiscito e o referendo. Primeiro o plebiscito para dar uma dica do que tem que mudar. E depois o referendo para aprovar ou não o que eles fizeram. Um ponto que vamos disputar no Congresso para incluir no plebiscito é a regulamentação do artigo 14 da Constituição, que trata dos referendos e dos plebiscitos no Brasil, para haver não só para uma questão emergencial, como foi o referendo das armas ou agora. Qual é o problema de consultar o Brasil se quer ou não ter a Copa do Mundo de 2014, as Olímpiadas de 2016? Isso seria criar canais diretos de comunicação com o povo, e é isso que o povo está pedindo na rua. JC - Que análise faz das medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff? Nespolo - Dilma instalou cinco pactos e diz que vai montar comissões, conselhos para cada um dos pactos. Vamos participar para fazer as coisas andarem na parte social. Vamos falar "Presidente, menos cimento, menos empreiteira e mais Estado, mais política social, mais saúde, mais educação", que é isso que o povo está dizendo. JC - E a questão do transporte, que motivou os protestos? Nespolo - O prefeito (de Porto Alegre, José Fortunati, PDT) deu um jeito de jogar o reajuste para as férias escolares, porque, em janeiro e fevereiro, boa parte dos trabalhadores está em férias, e os estudantes estão fora das salas de aula. A CUT, os rodoviários e o Dieese fizeram um estudo contestando que a passagem devia subir por conta do salário dos rodoviários. O estudo do Dieese falou que 10 anos atrás, precisava de 40% a mais de passagens para pagar o salário do rodoviário. Hoje precisa para pagar o salário do rodoviário 40% menos passagens. Então das duas uma: ou o salário dos motoristas caiu ou as passagens aumentaram 40%. Como o salário do motorista só teve a recomposição pela inflação, então significa dizer que as passagens subiram muito mais do que o custo. Esse estudo permitiu que o (procurador Geraldo) Da Camino, do Ministério Público de Contas, olhasse e dissesse: "Tem coisa errada aqui". E detectou que podia ser R$ 2,60. Aí o Bloco de Luta (pelo Transporte Público) entrou junto com os rodoviários - participamos das primeiras manifestações. A imprensa tratou tudo como bagunça. Depois um setor da sociedade entendeu que era uma oportunidade de causar desgaste ao governo e fazer suas pautas andarem e estimulou outros temas, que também são importantes, como o combate à corrupção. JC - E as soluções para o transporte? Nespolo - O transporte continua caro e precário. Eles não vão abrir as planilhas na boa. A Câmara aprovou a redução de mais R$ 0,05 e negou abrir as planilhas. Então queremos, como nunca, ver as planilhas, analisá-las. Entraram no mercado de trabalho nos últimos 10 anos 18 milhões de novos trabalhadores. As linhas continuaram as mesmas, as mulheres sofrem muito por conta da superlotação, o tempo que se perde para ir trabalhar e voltar para casa é muito maior do que há 10 anos por conta disso tudo. Então o transporte vai ter que ter uma pequena revolução, que não são os BRTs. Podem até ajudar, mas não é isso. JC - As isenções foram as medidas anunciadas pelos governos para diminuir a tarifa. Nespolo - Não existe como ter transporte de qualidade e totalmente financiado pelo usuário. O problema do modelo de transporte por concessão, no qual o Poder Público concede para alguém explorar, é como o problema dos pedágios: um bem público que se concede para uma empresa explorar. Então os donos de empresa em Porto Alegre e em todas as cidades são uns tubarões. Queremos que esse sistema acabe, vamos brigar pelo transporte 100% público, sem concessão e com financiamento público. Nem que, no limite, seja de 33%, mas tem de ter o financiamento público. Com essas pequenas renúncias fiscais, não se está mexendo no problema da concessão. E não adianta vir com essa conversa de que o gestor público não pode assumir. Porque nas principais capitais do mundo o transporte é público. JC - Falta fiscalização também? Nespolo - Houve um afrouxamento do controle público. Houve uma conivência do gestor. Seja aqui, seja em São Paulo. Perfil Claudir Antonio Nespolo tem 52 anos. Natural de Passo Fundo, começou na atividade política antes de completar a maioridade na Juventude Operária Católica (JOC) de Passo Fundo em 1977. Lá, ele "despertou para a consciência de classe e saiu da alienação". Nespolo relata que, na época, trabalhava como comerciário e percebia no sindicato da categoria um certo "peleguismo", o que motivou a JOC a disputar a direção da entidade. Destacou-se na militância e foi convidado para um cargo na direção nacional da JOC em 1982, migrando para São Paulo. É filiado ao PT desde 1988. Após fazer curso de metalúrgico, começou a trabalhar na área em 1987. Voltou para Porto Alegre no ano seguinte. Em 1992 foi convidado para integrar a direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Porto Alegre. Foi eleito presidente da categoria na Capital em 2001, permanecendo por nove anos no cargo. Foi convidado para assumir a diretoria executiva da CUT-RS em 2011 e, em agosto de 2012, tomou posse na presidência da entidade.

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